quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Lembranças de Quixabinha

Ainda menino de voz sobre mudanças, sem tom,  com  fortes graves e agudos intensos,  traços impulsivos e  magérrimo. Sinto cheiro da poeira, do carro que nos traz, quando freia para abrir a porteira. Chegamos a Quixabinha a 15 km de sua sede, cidade de Mauriti, distrito de Palestina, interior do Ceará. Distante 519 km da capital do estado, Fortaleza.  Bem próximo de minha cidade natal, Crato. Nosso espirito aventureiro chamando atenção do Sr. de face em rugas, cabelos brancos e escassos, sorriso e voz altiva a nos receber, pai do meu pai, Sr. de tantas histórias. Naquele momento as expectativas estavam voltadas ao mar sem ondas, as ilhas, as pescas e aventuras no olhar daqueles meninos, eram os 31.782.000m3 aos quase 30° do mês de férias, dos dias inesquecíveis em Quixabinha.
Um mar aos nossos olhos e a canoa fluía em braços fortes do senhor anfitrião, ele sempre sentado no meio da canoa, equilibrando as águas, eu a frente e minha irmã ainda menina, bem mais posterior. Entre espelhos d'agua e braços amarrados a cordas, sobre o mais absoluto e rigoroso domínio, daquele que disfarçava o não cuidar, dele não vinha o educar e ao mesmo tempo a alegria de aventurar ao lado dos seus.
Pular em águas e sentir novas sensações, lembranças e passos de quem tinha condições de experimentar o novo, de quem inconsequentemente se entregava a aventuras, eram meninos e esses mesmo nascidos em cidade próspera, com suas regras e altivez, sorriam e brincavam desconhecendo o perigo ou medo. Livres em formas e funções, construindo de suas maneiras o novo olhar diante da vida.
O açude construído na década de 70 pelo DNOSC para amenizar os problemas da seca, nesse dia nada mais era que o cenário para mergulhar em águas e superar desafios desconhecidos, mesmo ainda tão jovens e crianças soltos por águas, presos pela corda entre ilhas. Velho sábio oferecia liberdade, mesmo tendo tantos saltos em seu domínio.
Reminiscências, de tão longe, guardadas no fundo do baú, feito eco de voz que de tão forte, ouvidas no meio das águas distantes, era o amor de quem ama incondicionalmente, de quem gera e traz a vida. Aos olhos dos meninos livres e amarrados, a imagem nítida da barreira que impede as águas do Quixabinha escorrerem e desabarem, perdendo assim seu proposito, superar a seca. De longe a figura da mulher em seu desespero protetor, mesmo não tendo oferecido o alimento por seus seios, abria o grito por entre seus peitos, repreendendo a todos, que de tão longe, tornavam pequenos naquela canoa.
Os meninos mesmo inocentes tão quanto o velho, manifestavam através de gestos e braços as ferramentas que os protegiam, mas o amor que cegava aquela mulher, não fazia enxergar as cordas amarradas aos punhos desses meninos e de seu avô, feito fortes correntes, não tão frágeis como cordão umbilical que os unia a genitora.
Nascia naquele instante o fim das férias, incentivo ao medo e a continuação das regras, justificando tamanho amor, em laços de proteção, de quem só ama pode sentir. À volta pra casa, à terra vermelha e seca no meio de pedras ou as pedras entre terras promovendo poeiras sob cactos e a falta do espelho d'agua do Quixabinha. Das suas ilhas, das piabas fritas as suas margens, das meninas em vestidos molhados, modulando corpos em erupção, dos olhos verdes e longos cabelos loiros, da linda menina que me encantou, dos quais me trazem lembranças, o despertar. O fim de uma infância e começo de uma nova era.

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