Por duas vezes vivenciei o carnaval de salvador
em 2008 e 2010 esse relato foi a impressão que ficou.
Assisti ao espetáculo grandioso pela sua
estrutura e organização, vivendo de perto e também atrás do trio elétrico, muita
gente bonita dividida entre o corredor da folia e os magníficos camarotes, uma
gente incansável, sempre cantando ao som da Bahia, músicos dispostos a estar
sempre levantando a multidão, mas nesse espaço posso comentar alguns momentos
críticos e esses me chamaram a atenção de forma especial, senti
falta da Bahia dos antigos baianos, me surpreendi com as lágrimas e
demonstrações de emoções ditadas pelos artistas sempre diante das
câmaras de televisão indicando estarem ao vivo para o
mundo, sofri ao ver uma quantidade de pessoas transparecendo suas misérias
sejam por abandono social ou por necessidade de expor uma liberdade quase
insana capaz de ser confundida com felicidade aos olhos dos menos
sensíveis, ao mesmo tempo é carnaval, nossas fraquezas e fortalezas entram na
magia da festa pela porta da frente sem nem mesmo avisar, abrem portas
sem a menor cerimônia, os rituais vão da euforia ao obsceno, mesmo quando uma
cantora no alto do seu trio elétrico manifesta o desejo de rezar o “Pai Nosso”
a mesma fica frustrada, por não alcançar o “venha nós ao vosso reino”, as vaias
não deixavam, somadas as mais variadas manifestações contra aquela
atitude, pareciam concordar em não querer ninguém para reinar, perdoar ou
situações semelhantes o que todos queriam mesmo era extravasar e a cantora
atendeu aos donos da festa, fiquei entusiasmado, é esse o país no qual
quero morar, de uma gente decidida a fazer valer suas vontades e
não o país no qual vivo, onde se passa o ano inteiro pagando e sendo subserviente
dos nossos governantes, admirado fiquei com essa gente linda,
essas com as quais fiquei cercado nessa intensa alegria, não
as conheço, tenho apenas a sensação de vivermos em países distantes.
São as mesmas pessoas? Não consigo acreditar, elas assistem
o espetáculo da pressão dos gastos absurdos com dinheiro público e calam-se,
mas na avenida do carnaval ditam o que querem, reprimem seus sentimentos na
vida e liberam entre as cordas da alegria do carnaval baiano. Cordas
intensamente puxadas aos empurrões pelos cordeiros e esses demonstram em
suas fáceis a cara do meu país, não deste país no qual tomei abrigo por
algumas horas, nesse espaço privado e geopoliticamente
pertencente a minorias privilegiadas mas também assustadas ao
aproximarem da corda, mostrando temor entre esses dois mundos, o mesmo
não acontece quando desfilam mascarados e ao ritmo de suas
adversidades. O importante nessa festa é
continuar noite a dentro, encantando a todos, basta acordar na quarta feira de
cinzas ou porque não ficar aceso até as cinzas, seguindo o arrastão dos que
seguravam a corda, dos que dividiam mundos e nesse momento correm felizes
atrás do trio elétrico por duas horas pensando que a festa era pra
elas.
Mantive a mesma impressão em 2010, espero um dia
voltar a essa festa e tomara tenhamos mais igualdade social, assim quem sabe
assistiremos o espetáculo de um Brasil com mais saúde social e humana.

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